Por Gabriela Oliveira

A Revolução que Virá Pelo Olhar das Crianças

Publicado quarta-feira, novembro 1, 2017

Mutirão de pintura revitalizou muros do bairro do Glicério, em São Paulo.

Não é difícil, mas imagina se perto de onde mora tem uma praça abandonada, ou uma rua imunda, ou aquelas casas sem habitante que até assustam de tão feias…

Imagina se alguns moradores da região decidem fazer alguma coisa e fazem pintando fachadas, limpando a praça, provocando quem pode ajudar a ajudar, conseguindo brinquedos, gangorras, pula-pula e bancos para idosos sentarem….

Agora imagina se os mobilizadores dessa revolução local não são aqueles que vão e vem do trabalho, que passam sem ver ou pensam que algo pode ser feito, mas sim os que tem imaginação, que olham, veem e sonham… e vão fazer acontecer. Sim, essa revolução é possível. E será a revolução das crianças!

ImaginaC é o projeto que imagina um cenário assim, onde o olhar da criança vai mostrar outra forma de se enxergar o espaço público. E a ideia é conectar esse mundo lúdico e de aventura trazendo soluções ocupacionais, transformando as cidades em lugares mais amigáveis e sustentáveis. Como fazer isso acontecer? Com algo que hoje qualquer criança sabe mexer: um aplicativo, onde escolas, famílias, crianças e adultos podem jogar, aprender e compartilhar suas opiniões, buscando a transformação na rede.

Para isso o ImaginaC já criou uma plataforma digital disponibilizando material para quem se interessa pelo tema. O aplicativo que está sendo criado tem o objetivo de sensibilizar a criança e criar uma conexão dela e de suas famílias com a cidade, fazendo com que eles reflitam como aquele espaço poderia ser modificado, levantando problemas e buscando oportunidades.

A FORÇA DA CRIANÇAA discussão que o projeto ImaginaC traz para a sociedade é justamente a oportunidade de olhar de uma outra forma, através do olhar da criança, o espaço público. O site recém-inaugurado mostra toda a metodologia que será adotada pelo aplicativo, além de ideias de intervenções, conteúdo sobre o que já foi feito e como esse projeto pode fazer muito mais.

A revolução pode estar no olhar das crianças.

“O objetivo é você se conectar com as crianças e a ideia é que as famílias e seus filhos se conectem com a cidade brincando. Vamos disponibilizar várias opções de brincadeiras para se conectar com a cidade e vendo o que pode ser mudado. Terá também uma parte onde famílias poderão se conectar com outras famílias, trocar experiências, e uma segunda fase do jogo será como podemos imaginar uma outra possibilidade de cidade e de fato transformá-la, pois esse aplicativo também vai oferecer como a ideia da criança é conectada com uma rede, por exemplo, uma criança de um bairro x quer fazer uma ocupação com concertos musicais, e na rede do aplicativo terão instituições culturais, artistas, coletivos, empresas privadas, poder público, universidades, que podem ser sinalizados dessa necessidade e de fato responder a essa demanda.” Explicação de Nayana Brettas, mentora do projeto

Esse aplicativo também servirá, em futuro próximo, como base de dados para o governo, mostrando qual o desejo dessas crianças e suas famílias para que a cidade se torne um lugar mais habitável. É interessante pensar que esse aplicativo pode e será de fato um caminho para mostrar a importância da voz da criança na sociedade. Como ela pode transformar o nosso entorno em um lugar mais comunitário, um lugar para se compartilhar e viver.

DIFICULDADES E APOIOComo todo projeto, seu caminho para colocar em ação é coberto de incertezas. Requer muita força de vontade e movimento. Essa é dica de Nayana Brettas. A socióloga afirma que contou com a sorte, pode-se dizer, de ter uma rede de contatos voltados para a área, mas que nunca ficou parada esperando o dinheiro cair na conta. Sempre ia atrás mobilizando pessoas de diversas áreas, artística, educacional, e principalmente, voluntários para a realização dos projetos.

Atualmente, recém-lançado o site do ImaginaC, o projeto encontra-se na busca de patrocínio. A Fundação Bernard Van Leer apoiou o projeto doando o site e o filme animação para ilustrar a campanha. Porém, ainda falta a produção e finalização do aplicativo. E esse é o embrião de toda mudança.

Não queremos ficar dependentes de empresas privadas e nem dependendo do governo. Serão as próprias pessoas girando o capital que volta em benefício para elas mesmas”

Outra solução encontrada para a sobrevivência do projeto, após o aplicativo totalmente finalizado e disponibilizado para uso, é a possibilidade de se criar uma assinatura mensal, como explica Nayana:

“A ideia é que as famílias possam pagar R$9 por mês, se pensarmos a nível Brasil, a quantidade de crianças por escola, isso dá muito dinheiro. Mas tendo a ideia que eles vão acessar vários conteúdos, o jogo e principalmente as vivências práticas para a cidade, não na lógica de comercialização, mas na lógica de ajudar esse programa a funcionar. Porque a médio e longo prazo, com esse dinheiro, podemos fazer um fundo de investimento e esse dinheiro voltará em benefícios para a cidade. E então poderíamos investir em projetos criados pelas crianças, em reais mudanças na cidade. Não queremos ficar dependentes de empresas privadas e nem dependendo do governo. Serão as próprias pessoas girando o capital que volta em benefício para elas mesmas.”

Oficina de Maracatu, bairro do Glicério, começou com 8 crianças e terminou com 450 inscritos

COMO SURGIU O ImaginaC é o desenvolvimento de todas as experiências vividas por Nayana Brettas nesses últimos 15 anos. Nascida em São Paulo, 34 anos, a idealizadora do ImaginaC formou-se em Ciências Sociais pela PUC SP e logo após concluiu um mestrado pela Universidade do Minho, em Portugal, com a dissertação “A Cidade (Re)criada pelo Imaginário e Cultura Lúdica das Crianças”. Em 2014, Nayana foi convidada pela Secretaria da Criança de Brasília a participar da criação de uma política pública da primeira infância, o que resultou no Plano Distrital da Primeira Infância, e em 2015, com apoio da Fundação Bernard Van Leer, escreveu e colocou em ação o projeto Criança Fala, muito importante para o desenvolvimento do atual projeto.

Nayana Brettas, socióloga, idealizadora do ImaginaC

O Criança Fala teve um período de dois anos entre início de 2015 e final de 2016, onde foram desenvolvidas atividades culturais no bairro do Glicério, um dos pontos violentos de São Paulo. Eram feitas reuniões nas escolas locais com grupos de crianças, para entender qual seriam seus olhares na modificação do próprio bairro. Foram realizadas excursões para parques, circo, teatro, trazendo para elas outra realidade fora do âmbito em que viviam, e assim estimular o processo de criação. Esse processo era feito em etapas, durante as reuniões, que culminaram em projetos realizados pelas próprias crianças onde elas articulavam o que gostariam de modificar nas ruas do Glicério. Com isso, para colocar em ação essas mudanças, foram realizados mutirões culturais com apresentações de Maracatu, revitalização de locais públicos através da pintura, inclusive a revitalização de muros de casas com desenhos de personagens criados pelas próprias crianças. Esse projeto foi um dos vetores que desenvolveram o ImaginaC, como explica Nayana:

“O Glicério serviu justamente para mostrar às pessoas que era possível fazer algo e a potência da ação com as crianças, o que essa inspiração é capaz de fazer. De viagens feitas por mim, resolvi listar 33 aprendizados com as crianças, que estão no site do ImaginaC, e ministrei um curso que se chamava “Sentir e viver a cidade pelas crianças”. Nesses dois dias de curso, eu notei que o que eu passei para as pessoas era o que eu havia vivido nos dois anos de experiência no bairro do Glicério. Então surgiu a metodologia adotada no ImaginaC.”

(Crianças criam os personagens que dão vida aos desenhos através do Criança Fala.)

 

 

SERVIÇO:  Site: https://imaginac.vc , E-mail: atendimento@imaginac.vc.

O que você achou da trajetória do ImaginaC? Essa é uma Seção onde nós iremos abrir para que vocês possam mostrar projetos interessantes. Quais os principais desafios e quais as maiores dificuldades de se levar adiante um projeto? Se você tem interesse em publicar a sua história, envie para pautas@marketingcultural.com.br .

*Crédito das fotos: Sheila Signário

Conheça o projeto da EDISCA: Link para a matéria EDISCA

Conheça o projeto de endomarketing Eu Faço Cultura: Link para a matéria Eu Faço Cultura

Se não for assinante acesse nosso conteúdo premium clicando Aqui.