Por Roman Bruni

Sem um bom roteiro, seu filme vai nadar na mayonaise

Publicado terça-feira, outubro 24, 2017

Ele já foi roteirista de novela em TV regional da pequena cidade italiana Ascoli Piceno – que depois o levou a adotar BR no nome BRuni para enfatizar sua brasilidade, incomodado com aqueles que o consideravam italiano – e também diretor-roteirista de “Chaves do Teatro com Maria Clara Machado”. Mas sua experiência mais marcante foi quando trabalhou como analista de roteiro para o European Script Fund, em 1995, onde pôde ter um encontro com o “know-how” do roteiro blockbuster em um órgão que provocou mudanças na indústria cinematográfica europeia.
Roman BRuni foi convidado para contribuir no lançamento do portal Marketing Cultural e o fez de duas formas: enviou um texto, que publicamos abaixo, onde desenvolve raciocínios com sua linguagem própria, e um vídeo onde conta de um jeito, digamos assim, heterodoxo, sobre o que não pode faltar em um roteiro.

Confira, porque vai ser interessante!


Quando escrevi meu Manual de Roteiro, há 18 anos, ouvi de um produtor de filme com grande orçamento de lei de incentivo e baixa audiência: “filme? Que filme?”. Percebi que o negócio dele era financeiro, político, ideológico, para o controle do peso contando batatinha frita um dois três.

Depois, em vários festivais, ouvi repetidas vezes: “meu filho vai escrever o roteiro”. Aí, em meio a várias rodadas de chopp e malandragem, atores me explicaram que “roteiros bloqueiam a espontaneidade”.

Até que num evento em São Paulo ouvi a maior de todas: “o roteiro só serve para ganhar o edital; depois faço o filme que eu quiser”.

Acho que o Cinema é artesanal na sua produção, mas industrial na sua distribuição, exigindo a capacidade de ser criativo e produtor empreendedor, ao mesmo tempo.

Você pode ter todo o QI da cidade, dormir e acordar com todas pessoas poderosas, mas sem um bom roteiro seu audiovisual vai ficar nadando na mayonaise e você vai ficar recebendo enchantée naquela região do limbo que os franceses chamavam de cult movie.

Décadas depois, na crise desta semana, acho que existe a oportunidade de sair do “Deus lhe pague” para finalmente vislumbrar, usar modelos inovadores de realização comercial de filmes, séries e animação com DNA feito da criação harmonizada com marketing de cinema na economia criativa (online, offline, underline).

Acho que está ficando possível efetivamente compartilhar com o respeitável público um bom filme nacional sem precisar ter coragem para chamar a família para assistir.

Penso que o ciclo de inovação das narrativas audiovisuais precisa amadurecer para além do eixo paródia versus paráfrase – que não faz rir de verdade.

Está saindo de moda a rebeldia com causa, mas sem ação, que se apoia nas atitudes de relativização que desconsideram números, que são restritas pela crítica que só enaltece a recriação de modelos sem risco e sem valor cultural, com roteiristas que escrevem e reescrevem infinitas vezes seus roteiros apenas para fazer terapia dos diretores que não sabem qual o filme em que vão gastar dinheiro para fazer.

Quero explorar com o cinema a experiência da narrativa vital que articula a informação de uma maneira lúdica.

Quero descrever no Roteiro o peso do gesto que revela o mais verdadeiro e original da cultura brasileira. O público lá longe, no mundo de hoje, carece, necessita e sofre, porque não tem acesso a solução da necessidade com a felicidade de estar vivo, que conjugamos no quotidiano tropical.  A inteligência emocional que conta a história do viver e não ter vergonha de ser feliz, faz falta aparecer mais nas telas.

O eu filósofo resume o processo que nasce da intenção, faz a vontade, faz contato, usa energia, direção, velocidade, impacto e permite “o roteiro fluir como uma onda no mar.”

*Roman Bruni é roteirista e autor do Manual “Roteiro de Roteiro 3.8ebook”, que está disponível no endereço www.RomanBRuni.net

Os melhores roteiros nem sempre são dos melhores filmes, mas, indiscutivelmente, a trilogia de “O Senhor dos Anéis” é o mais difícil roteiro dos anos recentes por ser adaptação de livros que muitos tentaram, sem sucesso, viabilizar a narrativa que funciona como livro.

Os roteiros (e seus roteiristas) dos filmes mais fascinantes e importantes para mim são:

Lawrence da Arábia (David Lean)

Mediterraneo (Enzo Monteleone)

Tempos Modernos (Charles Chaplin)

O Jovem Frankenstein (Gene Wilder e Mel Brooks)

Valerian (Luc Besson)

Depois da chuva (Akira Kurosawa)

Seu nome (Makoto Shinkai)

La femme Nikita (Luc Besson)

Fargo (Joel e Ethan Coen)

Um peixe chamado Wanda (John Cleese)

Brazil (Terry Gilliam, Charles McKeown e Tom Stoppard)

Akira (Izô Hashimoto)

O Pagador de promessas (Dias Gomes)

Céu sobre Berlin (Win Wenders)

La dolce vita (Federico Fellini, Ennio Flaiano, Tullio Pinelli, com contribuição de Brunello Rondi)